Descansa.

2008-05-26

Este texto foi escrito em Janeiro de 2007, para um blog que eu tinha na época.
Não quero que ele se perca junto com o falecido blog. Por isso, quis trazê-lo para minha nova casa.

Ele chega em sua casa um pouco tarde, contando que tem de trabalhar no dia seguinte.
Arranca as roupas e as joga em um canto bem visível para não se esquecer de tirá-las dali.
Entra embaixo do chuveiro.

A água está agradável. Nem muito quente, nem muito fria.
Fecha os olhos.
Se apoia com as mãos na parede. Respira.

Sente como as gotas o atingem.
Uma após a outra, milhares, alcançam seu ombro, respingam, escorrem.

Se enrola em uma toalha e vai fechar a janela.
Estaca olhando pra fora.
Uma brisa sutil esfrias as gotas que teimam em permanecer em sua pele.
Uma garoa fina banha os telhados até onde se pode ver.

Algumas das insistentes gotas sobre seus ombros ganham força se juntando a outras.
Escorrem pelas suas costas.
Acariciam como dedos acanhados.
Nervosos.

Como aqueles que passaram por ali alguns minutos atrás.

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Cuidando do jardim.

2008-05-05

As vezes me acho estranho por manter as boas lembranças o mais vivas o possível.
Parece que só eu faço isso. Afinal, é muito mais fácil se lembrar apenas do que aconteceu de ruim. Dói menos não querer mais, e achar que tudo foi por nada.

Mas do que vale passar por milhares de coisas boas se, no final, você fica com esse sentimento de “okay, foi mais uma experiência.” ?
Dezenas de pessoas maravilhosas passaram pela minha vida, e eu faço questão de manter as boas lembranças comigo, até de modo mais intenso do que as lembranças ruins.

Hora ou outra é um pouco desconfortável, mas acredito que só assim eu posso dimensionar o quanto eu fui feliz, o quanto sou, o quanto posso ser. Posso olhar para o que eu já fiz e conquistei e saber que posso fazer e conquistar de novo. Talvez não agora, ou amanhã, ou com estas mesmas pessoas.

Ao invés de abaixar a cabeça e pensar no que não dá certo, que a vida não lhe é boa, pense no já passou. Lembre de todos os detalhes e momentos gostoso. Das chuvas, cafés, borboletas, falta de ar.

O mundo já foi muito bom para você, posso ter certeza. Continue sendo alguém bom e desejando o melhor para quem merece que, com certeza, você ainda vai ter milhares de belas surpresas pelo seu caminho.

Hoje eu estava, como sempre, indo comer um lanche barato no mercado aqui perto de casa. R$1.50 e você come alguma coisa dentro de um pão francês. Muito bem servido, por sinal. Um bom negócio, pelo custo/benefício. Uma daquelas coisas que te faz sentir bem na hora de pagar.

Mas hoje a mocinha não estava lá. Tinha ido fazer alguma coisa em algum lugar.

Eu, como adoro ser sarcástico, comentei com um segurança e com um japonês com cara de ingênuo: “Mas hoje é self-service, não é!?”

O japonês, tímido e sem muita habilidade social, viu nisso uma abertura e tentou me vender um livro que ele segurava: “Quer comprar? R$3 e ele é teu. Estou precisando de dinheiro.”

Ele, definitivamente, não parecia precisar de dinheiro. Roupa social, gravata, calça engomada, sapato feio que japonês adora usar. Tudo impecável.

Ah! E, antes que pergunte, ele também não parecia ser usuário de drogas. No máximo alguém que assiste hentai.

Pegou um sanduíche, se sentou. Peguei meus dois, me sentei.

Posso dizer que os sanduíches são mesmo bons por lá. Grandes, bem recheados. Pecam um pouco no tempero, mas nada que não se resolva com um pouco de Ketchup Júnior.

Quando me levantei para pagar, ele se levantou e pediu outro. Comentou comigo que não comia carne.

Eu fui vegetariano por 3 anos. E nesses 3 anos, só comi carne uma vez. Carne que tinha 3 dias na geladeira e havia sobrado de uma bandejinha de ano novo.
O nome disso é fome. Quem já passou (sem ser por regime) sabe como é.

Todos nós precisamos de ajuda em algum momento.
Já fiz faxina, carreguei caixa de laranja e fardo de papel higiênico, entreguei panfletos. Contei moedas para comprar pão.
Todos levamos tombos. Tropeçamos. Escolhemos errado. É só não assumir a “dificuldade” como opção de vida…

Pedi para a mocinha do caixa cobrar dois sanduíches a mais.
“Outro dia eu explico”

Um vídeo bonito e um trecho de um email que mandei pra alguém muito importante depois de uma “iluminação”:

“Quero um sabonete e uma boa esponja. Quero uma luminária e um futon.
Não quero sofás para deixá-los vazios. Não quero livros que eu já li. Não quero móveis. Não quero o suposto conforto que nos vendem em várias prestações.
Pense nas coisas boas. Quantas delas realmente precisam de muita coisa?
Com um prato, um garfo e uma faca se pode comer algo delicioso. Com um chuveiro se pode refrescar, aquecer. Pra quê peças de mobília com seus pares de pernas e frestas?
Quer algo melhor que sexo? O que se precisa pra ter uma boa noite de sexo? Nada além de duas pessoas.
Não quero máquina de lavar, secadora, aspirador de pó. Não quero guarda-roupa.
Quero os abraços da Dani e as tiradas do Edu.
Não quero fogão, panelas, utensílios. Não quero carro. Não quero motivos pra me preocupar.
Não quero vasos. Não quero prateleiras. Não quero âncoras.
Quero arte. Quero fazer arte. Quero “fazer arte”.
Quero sentar na toalha e deixar secar. Quero espaço. Quero me esticar.
Não quero relógios.
Quero bom café, boa comida. Quero carinhos e cafunés.
Quero paredes lisas. Quero telas em branco. Quero morar numa tela em branco. Quero ser uma tela em branco.
Quero Louise Martins.
Não quero rococós, barrocos. Não quero cantos.
Quero sentir o tempo e o cotidiano como venho sentido.
Quero confidências. Comidas frescas e cruas. Quero gozo.”

E o vídeo:


Edit: Vídeo descoberto no blog: http://www.carreirasolo.org